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Opinião e realizações

domingo, 14 de julho de 2013

Futebol potiguar: a era dos heróis acabou!


É triste ver as torcidas de ABC e AFC se digladiando verbalmente pelas redes sociais quanto a goleadas sofridas nesta última rodada da Série B, ambas com 4 gols marcados pelos respectivos adversários. Trata-se do retrato mais perfeito da rivalidade destrutiva: aquela do "roto" contra o "esfarrapado", aquela do "sou ruim mas você é pior". 

É decepcionante constatar, também, que esta é a postura em muitos outros aspectos da vida política e empresarial potiguar. Há inclusive uma frase famosa, atribuída ao jornalista Cassiano Arruda Câmara, que reza que "o natalense gasta 200 para o outro não ganhar 20" (mais a respeito, no excelente post de Cefas Carvalho). 

Quando participei da preparação das credenciais natalenses para sediar a Copa, juro que acreditei que, a partir desta importante conquista, o RN conseguiria captar e gerir investimentos para que seus clubes crescessem e se consolidassem no cenário nacional. É certo que os números locais não inspiram muito. O maior público do Clássico Rei ainda foi no campeonato estadual de 1976, no estádio então ainda chamado de Castelão, com 50.486 pagantes. De lá pra cá, entre crises e falta de estádios, e mesmo apesar de algumas incursões pela série A, o público do Clássico Rei jamais conseguiu superar este "recorde". 

Mas este ano deveria ser considerado um ano especial pelos clubes potiguares, com um contexto jamais vivido por eles: ambos disputando a mesma divisão do campeonato nacional num ano em que, devido à presença do Palmeiras, a Segundona tem um destaque especial nos principais noticiários esportivos do País. Além disso, os dois clubes estariam às vésperas de ser os dois grandes anfitriões do futebol potiguar na Copa do Mundo de 2014, que tem Natal como uma das suas sedes. 

Santa Catarina não terá a Copa (Florianopolis foi eliminada exatamente contra Natal). Mas é visível que seus clubes fizeram um intenso trabalho, juntando federação, empresas, governos locais e os clubes. Resultado: tem 4 times catarinenses na Segundona (Chapecoense, Joinville, Figueirense e Avaí), sendo que os três primeiros estão no G4/2. E o Criciúma, que migrou para o primeiro escalão sendo vice-campeão da B no ano passado e lutará como Tigre para se manter na A para o ano da Copa. Mesmo na remota hipótese de que caia, teríamos em 2014 cinco clubes catarinenses praticamente fazendo um campeonato à parte, na Série B de 2014. Sem Copa, sem Arena, mas com planejamento e integração.

Na véspera, no ano e um ano depois da Copa em Natal, ABC e AFC deveriam ser máquinas de fazer dinheiro. Será que os clubes se prepararam mesmo para este período mágico e inédito? Será que se deram conta e planejaram direito o que fazer numa circunstância tão especial? A perspectiva de ser uma sede de copa com seus dois principais times na Série C (!) do Campeonato Nacional não incomoda estas pessoas? 

Alguma coisa, misto de problema sério de gestão e transparência nos clubes combinado com falta de mobilização integrada de quem gere a Copa com a Federação, prejudica o êxito dos valorosos clubes potiguares. Os amigos jornalistas e boleiros do RN, que estão mais por dentro do dia-a-dia do assunto podem esclarecer. Mas é imprescindível perguntarmos: é incompetência, individualismo, ingenuidade ou inépcia dos dirigentes não aproveitar a Copa? Já não teremos a prometida mobilidade urbana. Será que sequer nossos clubes se beneficiarão desta realização inédita?

Modus in rebus, Santa Catarina bem poderia ser o RN do Sul: turística, cheia de imigrantes, espremida geografica e culturalmente entre dois "monstros" econômicos e futebolisticos (Rio Grande do Sul e Paraná), até pouco tempo havia a mesma dificuldade de atrair público e patrocinadores. Clubes locais não conseguiam sequer competir com os times do RS, SP ou RJ na atenção dos torcedores locais. Mas alguém soube fazer o trabalho, tanto de planejamento financeiro, técnico e estratégico quanto de interiorização e integração entre os clubes. Seria um exemplo a investigar melhor? 

A meu modesto ver, em todo o Brasil e no mundo, enquanto os clubes de futebol foram administrados como feudos privados ou trampolins políticos, só frustraram seus torcedores (afora alguns efêmeros e descartáveis êxitos). No RN, no entanto, parece que ultimamente nem para a política os clubes do RN têm servido. A maior parte dos políticos não gosta de "causas perdidas". Só vão em causas ganhas, em bolas certas.  Aparecer em dia de final quando o time está bem é fácil! Talvez gostássemos de ver se mobilizarem AGORA, para salvar ABC e AFC da C em pleno ano de sediar a Copa.  Aliás, sou dos últimos a defender que apenas políticos se mobilizem quanto ao futebol. O empresariado local, cada um contribuindo com um pouquinho, também poderia ajudar, e muito. Mas parece que aqui também há falhas e desigualdades desestimulantes: os dois clubes aparentemente têm marcas e empresas associadas ao seu patrocínio. Será que são cotas desajustadas demais? Será que a gestão disso está correta? Como pode não terem elencos de qualidade a ponto de estarem hoje no Z4/2 com risco alto de rebaixamento para a Série C? 

Já há empresas locais (e até marcas nacionais) que patrocinam os times potiguares. Elas têm retorno? Estão satisfeitas? Se sim, outras deveriam seguí-las. Se não, então algo está muito errado e é necessário que elas imponham novos modelos de gestão aos veículos que remuneram: os clubes. No futebol atual do mundo e do Brasil, goste-se ou não, é o dono da grana (quem viabiliza o clube) quem manda! 

A era dos heróis acabou!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Agências reguladoras ineptas liberam o abuso econômico nos serviços regulados.


Na semana passada, falamos aqui do Judiciário e do seu papel (ou responsabilidade) no estado de coisas contra as quais o Levante das Ruas protestou e protesta. 
Hoje, a berlinda vai para as AGÊNCIAS REGULADORAS
Quem é mais da antiga, não teve o hábito de conviver com elas, pois o Brasil até bem pouco tempo era quase um país semi-socialista sem se dar conta. Tudo, praticamente tudo, afora o comércio e os setores industriais de manufatura, era dominado e exercido pelo Estado Brasileiro, diretamente ou através de empresas estatais: rodovias, ferrovias, aeroportos, telecomunicações, energia, petróleo e gás, infraestrutura urbana etc. além das áreas em que o Estado participava competindo com a iniciativa privada, como hotelaria, transporte urbano, mineração, distribuição de combustíveis, medicamentos, planos de saúde e outros. 
Quando o País decidiu-se pela abertura de todos os setores da sua economia ao investimento privado direto, e também à operação destes setores por empresas privadas, foi necessário criar entidades com conhecimento técnico e gerencial de cada uma destas áreas para fiscalizar e controlar a qualidade dos serviços prestados ao consumidor. 
Foi aí que surgiram as tais Agências Reguladoras, que são por isso mesmo, setoriais - ou seja, uma para Energia (ANEEL), uma para a Aviação Civil (ANAC), uma para telecomunicações - que inclui telefonia fixa, celular e TVs por assinatura (ANATEL), uma para transportes terrestres (ANTT) e outra para transportes aquaviários (ANTAQ), uma para o petróleo e gás (ANP), medicamentos e vigilância sanitária (ANVISA), planos de saúde (ANS) e assim por diante. Em relação aos bancos, embora haja diferenciações no detalhe, é o Banco Central quem exerce o papel de autoridade regulatória máxima para o setor. 
Estas agências tem também o poder de PUNIR os maus agentes dos seus respectivos setores - que são todos de interesse público ou estratégico (ou os DOIS) para o País. 
Ora. Quando nem o Judiciário, nem as Agências Reguladoras funcionam a contento - ou pior, quando ocorrem casos onde notadamente agem para preservar, proteger ou assistir o prestador de serviço deficiente --> então estamos em maus lençóis! 
Todos os setores têm agentes de má fé e agentes incompetentes, bem como existem hoje agências reguladoras melhores e piores. Mas quando se olha qualquer pesquisa de satisfação sobre a qualidade dos serviços públicos ou regulados no Brasil, vê-se logo onde estão as deficiências: nos setores em que há possibilidade de fidelização contratual do consumidor ou cliente. Note onde é que tem mais problema e reclamação: plano de saúde que não reembolsa, telefônicas que "erram" nas contas ou provêem serviços precários, TVs por assinatura que embutem despesas não contratadas, bancos que em nome da segurança do usuário criam empecilhos cada vez maiores para que ele disponha do seu dinheiro quando quer - além de criar custos e serviços desnecessários ou fúteis para dragar recursos da sua conta - depositada em confiança, e por aí vai. Ou seja, quando o serviço é fidelizado aí é a tragédia total! Você está 'na mão' do prestador. Ele tem um 'cheque em branco' seu! E vc tem que ficar AUDITANDO as contas que chegam pq SEMPRE tem alguma coisa ininteligível, estranha ou errada. Se vc tiver 4 a 6 serviços assinados (como é normal a qualquer brasileiro hoje), são 6 auditorias e brigas telefônicas com call centers igualmente mal regulados (a tal Lei dos Call Centers é mais uma daquelas que "não pegou" no Brasil - ninguém cumpre). E como o brasileiro já foi cauterizado no entendimento que recorrer a agências ou ao judiciário só lhe dá despesa e nunca a satisfação da verdadeira justiça, o que ocorre no Brasil hoje é o império da barbárie no setor de transporte público (onibus, trem, metro, avião) - que trata o cidadão como manadas de bois - e nos setores fidelizados contratualmente (telefone, TV a cabo, bancos - em suma, tudo que tem 'conta' ou 'extrato') - que trata o consumidor como otário. 
Por falta de autoridade e pusilanimidade das respectivas agências (cujos dirigentes são muitas vezes nomeados pelos próprios regulados, via políticos de aluguel), estes setores ABUSAM do direito de lesar o consumidor - impunemente. E taí mais um motivo do Levante das Ruas. Chega de sermos tratados como manada. Queremos agências que nos defendam, e não aos regulados incompetentes. 
É preciso pois abrir representatividade e transparência a estes "castelos" em que se converteram as agências reguladoras no Brasil - não todas, mas a maioria.  

O Judiciário também na berlinda dos protestos nacionais

Todos nós temos falado muito ultimamente dos protestos, do Levante das Ruas, que os brasileiros promoveram em todo o País. 
E muitos ainda têm dúvidas (e outros fazem de conta que não entenderam) a razão pela qual fomos às ruas. 
É claro, que numa versão bem resumida, pode-se dizer que se trata de manifestações em prol de aprimoramentos do setor público e da política nacional. E o foco, então, parece ser - à primeira vista - apenas o Governo e os Políticos, de forma mais geral. Contra o oportunismo, a demagogia, os abusos, enfim, o péssimo retorno desta atividade para a sociedade que lhes dá poder. 
Mas, vamos lá: a política é oportunista desde Portugal, desde a Grécia, desde o Egito. Aliás, acho que a política é oportunista e demagógica desde que é Política. Se deixar, é sem limites. 
A impunidade e, pior, a sensação de impotência diante das estruturas e esquemas inacessíveis aos comuns, é o que nos faz deixar de denunciar, deixar de prestar queixa, deixar de protestar, deixar de processar, deixar de lutar - enfim. 
"Não vai dar em nada" é o que normalmente ouvimos dos amigos, colegas, parentes. E o pior é que é verdade.
O que faz com que a Política tenha limites éticos, morais, operacionais, como aliás qualquer outra atividade, é o bom funcionamento do Terceiro Poder: o Judiciário.  E este não parece estar na berlinda. E deveria estar também. 
A Justiça brasileira é, de longe, o nosso (nosso?) pior Poder. Mas como não é guindado ao poder pelo voto, se torna distante das cobranças diretas - até mesmo desta, tão poderosa e eloquente: a das ruas. 
Passamos horas destilando críticas, investigando, comentando e admoestando nossos Executivos e o Legislativos, nacional e localmente. E os elegemos, ou não - redimindo-os ou condenando-os quadrienalmente. Mas a terceira Casa permanece intocável, inatacável, silenciosa e distante.  Verdade? Talvez não... Vejam os trechos que destaco de uma entrevista do Min Joaquim Barbosa, hoje presidente do STF, não de agora, mas do primeiro domingo de 2010, no Jornal O GLOBO
Destaquei apenas uns trechos: 
"A impunidade é hoje o problema crucial do País. Ela é planejada, deliberada. As instituições concebidas para combatê-la são organizadas de forma que elas sejam impotentes, incapazes de ter uma ação eficaz" 
"A Polícia e o Ministério Público não obstante as suas manifestas deficiências e os seus erros e defeitos pontuais, cumprem razoavelmente o seu papel. Porém, o Poder Judiciário tem uma parcela grande de responsabilidade pelo aumento das práticas de corrupção em nosso país." 
"A generalizada sensação de impunidade verificada hoje no Brasil decorre em grande parte de fatores estruturais, mas é também reforçada pela atuação do Poder Judiciário, das suas práticas arcaicas, das suas interpretações lenientes e muitas vezes cúmplices para com os atos de corrupção e, sobretudo, com a sua falta de transparência no processo de tomada de decisões." 
"Para ser minimamente eficaz, o Poder Judiciário brasileiro precisaria ser reinventado"
Alguns formalistas (e claro, alguns "corporativistas") dirão, de novo, sobre ele: "Joaquim Barbosa é um populista no Judiciário", "não pode contrariar a Constituição e fazer proselitismo com as ruas"... Parece que ele antevia o que aconteceu... Hoje, diante dos protestos, é bom, ver que o Presidente de um Poder inacessível, empertigado, ineficiente e arcaico, há 3 anos atrás já reconhecia a própria culpa nos defeitos do País que queremos reformar. 
Uma nesga de otimismo surge quando até o Poder mais distanciado do povo é obrigado a ouví-lo, ou, neste caso, fazer-se ouvir. 

No país do futebol, recall de políticos, sim! Mas royalties para ônibus, não!

A configuração explosiva do desdém das autoridades pela da pressão popular quanto às tarifas de ônibus + o pito do Blatter na galera do Maracanã + a indignação acumulada com os absurdos e a cara de pau do dia-a-dia na política nacional (e local) levou a sociedade - hoje conectada e mobilizável em poucas horas - ao levante nacional.
Uma das panacéias (cura para todos os males) tem sido citada a todo o momento são os royalties do pré-sal (e do petróleo, em geral). 
Mas eles têm que ser vistos com realismo: tanto geológico (devem ser mensuráveis ao longo do tempo e certamente são finitos) quanto econômico (devem construir riqueza e não ser diretamente injetados na economia nacional, sob pena de gerar a tal "doença holandesa" (dependência excessiva das receitas do petróleo matando os demais investimentos, como na Venezuela). 
Eles têm que ir para o futuro (é a natureza desta compensação financeira pela exploração de recursos NÃO renováveis). Tem que ser para formar gerações futuras, admitida uma parte exclusivamente para aprimorar a estrutura dos serviços de saúde públicos, mas com alto controle.  A presidente Dilma foi radical, corretamente: não queria nada para outra coisa que não fosse a EDUCAÇÃO como destino dos royalties - inclusive os atuais. O Congresso ponderou democraticamente e inseriu 25% para a Saúde (ninguém pode reclamar disso diante do caos que aparece em todas as reportagens sobre o assunto. É urgente a injeção de investimentos - mas com ALTISSIMA vigilância quanto aos desvios).
Agora: mesmo com todo o clamor social, royalties do pré-sal pra ônibus? NUNCA! 
Esta proposta é uma demagogia barata indisfarçável além de ser insustentável economicamente, porque royalty acaba e porque, no Brasil, o sistema de transporte público é, em sua maioria, privatizado por concessões! Não é público faz tempo! Seria pegar dinheiro dos investidores em risco do petróleo para entregar na forma de subsídio a concessionários de ônibus e trens (na contramão de quem é concessionário do Estado ou do Município, que deveria PAGAR para ter a concessão). E se o negócio não é bom, que se estatize tudo do jeito que é na maioria dos países que eu conheço no mundo: uma empresa municipal ou estadual. E o passe livre passa a ser despesa pública como tantas outras, saindo da milionária arrecadação fiscal brasileira - se o povo assim quiser.
No mais, corrupção como crime hediondo, rejeição da PEC 37, fim das votações secretas para cassar parlamentares e até o RECALL de eleitos! (Permitiria "des-votar" eletronicamente naquele que vc votou). Seria uma beleza! E apesar disso dar arrepios aos conservadores juristas e principalmente aos políticos tradicionais, é perfeitamente factível para a geração das redes sociais e da interação via celulares e internet. Mesmo a base da pirâmide tem acesso. E claro q isso teria barreiras condicionantes (quorum mínimo, tempo de mandato mínimo, etc) mas seria fantástico ver os nossos representantes nos representando de fato, em tempo integral, não apenas em tempos de eleição.
AGORA, temos UM ANO para reformar os estádios, os aeroportos, os acessos e a política brasileira! Quem quiser FICAR na política, a partir de 2014, tem UM ANO (sem apelação) pra se virar. 
Uma coisa é certa: O Brasil ainda vai dar graças por ser o País do Futebol, pois será ele a ter colocado PRAZO em todas estas tarefas.
Íntegra do áudio de hoje (27/JUN/2013):  
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