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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Graça Foster: “Investimos em eólicas para ter retorno e para gerar energia de verdade"


Ao entregar prontas as primeiras eólicas do leilão de 2009 em tempo recorde, a comandante de todos os investimentos da Petrobras em gás e energia, em entrevista exclusiva à E&RN, declara que torce para que a energia eólica a R$98/MWh vire elétron de fato: “Não sabemos como gerar com eólicas a este preço, mas queremos aprender”.

A diretora de Gás e Energia da Petrobras, Graça Foster, tem sob sua responsabilidade  importantes ações como a ampliação da malha de gasodutos, a busca de flexibilidade no suprimento de gás natural ao mercado brasileiro, a administração das fábricas de fertilizantes e de ativos de geração de energia elétrica, como termelétricas e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), além dos investimentos em outras fontes renováveis, como energia eólica e solar. A diretora lidera um montante de mais de US$ 13 bilhões em investimentos a serem realizados pela empresa no período 2011-2015 nestas áreas.

Mineira de Caratinga, formada pela Universidade Federal Fluminense, Graça Foster começou como estagiária na Petrobras aos 24 anos, no centro de pesquisas da empresa - o CENPES, trabalhando nas áreas de perfuração e produção. Ao longo de sua carreira na empresa, além do conhecimento técnico, desenvolveu também uma vocação natural de liderança que logo a projetou como organizadora de áreas ou subsidiárias em fase de grandes desafios. Assim, participou ativamente da viabilização e construção do Gasoduto Bolivia-Brasil e chegou a presidente da TBG. Entre 2003 e 2006, foi convidada pela então Ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff para organizar a Secretaria de Petróleo e Gás. Presidiu também a Petroquisa e a Petrobras Distribuidora, e está à frente da área de Gás e Energia da Petrobras desde setembro de 2007, onde reverteu o resultado de prejuízo deste setor na empresa à época, para um resultado positivo de R$1.2 bilhão no primeiro semestre de 2011.

Nesta entrevista exclusiva à Energia&RN, a primeira mulher a assumir uma diretoria da Petrobras conversa com o diretor do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (CERNE), Jean-Paul Prates, sobre os investimentos e projetos da Petrobras na sua área e, em especial, sobre o panorama atual das energias renováveis no Brasil e, em especial, na região RN/CE.


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JPP - Os 4 parques eólicos do complexo Mangue Seco, localizado em Guamaré-RN, que têm a Petrobras como sócia majoritária, tiveram a sua construção concluída em tempo recorde – tornando-se os primeiros empreendimentos eólicos do Leilão de 2009 a entrar em operação. A que se deveu este sucesso?

GF - Estes projetos tiveram sua construção e operação antecipadas em 8 meses.  Esse sucesso deve-se ao planejamento e ao acompanhamento da implantação junto à empresa contratada (Wobben) para executar a obra. Desde antes de ir para o leilão, nós trabalhamos com tudo já equacionado: desde o financiamento desenhado e aprovado até o termo de compromisso vinculante com o EPCista (que instala o parque eólico). A gente trabalhou com a Wobben em Mangue Seco I, II, IV e V e a construção em tempo recorde permitirá a antecipação de receitas e melhorará o resultado econômico desses projetos. Além da satisfação com o sucesso da obra, este empreendimento nos traz um grande aprendizado, já que foi a primeira vez que a Petrobras realizou projetos eólicos em escala comercial. Esta experiência tornará a Petrobras mais eficaz para a concepção e realização de novos projetos como os que estão em desenvolvimento.

JPP - Quais foram os principais desafios e dificuldades enfrentadas nestas obras?

GF - É um trabalho que exige muita mão-de-obra, o mercado está muito aquecido então isso exige formar pessoas durante os trabalhos. O nível de escolaridade, ainda baixo, faz com que você tenha que trainar trabalhadores ao longo da jornada de trabalho.  Ele tem que ler e entender o que está lendo, para poder trabalhar numa obra destas. Então às vezes precisamos fazer aulas de reforço, consolidar conceitos de segurança operacional.  Tem também a questão da logística que é pesada e complexa. Mas, no conjunto, deu tudo certo porque terminamos 8 meses antes do previsto. Então foram dificuldades perfeitamente superáveis. Vamos faturar uma receita antecipada, mesmo sabendo que o VPL (valor presente líquido) é pequeno – pequeno, para a Petrobras – mas é o VPL típico e médio destes projetos eólicos novos.

JPP - A propósito, por ocasião destes preços baixos, chegou-se a comentar que algumas estatais estariam se contentando com preços e taxas de retorno mais baixos que o razoável, por terem estofo governamental. Isso procede?

GF - Quanto à Petrobras, certamente não. Para nós, energia de qualquer tipo tem que dar retorno adequado. Nós temos PCHs, temos eólicas, temos térmicas a gás, a óleo. Mas todas têm que dar resultado positivo porque objetivamente nós vamos fazer. Você pode contar com aquela energia naquele dia, naquela hora, que nós vamos entregar. Então eu não tenho como baixar taxa de retorno para poder viabilizar um VPL positivo porque isso é artificial. Não há milagre neste negócio.  

JPP - Ainda segundo o Plano de Negócios 2011-2015, dos US$ 13 bilhões de investimentos em Gás/Energia, 21% (US$ 2,8 bi) estão assinalados como sendo para "energia elétrica". A Petrobras, através da sua diretoria, tem apostado em energias renováveis, com destaque para parques eólicos (4 dos quais localizados no RN). É possível, dentro deste 21% de energia elétrica, destacar quanto do seu investimento quinquenal será dedicado à energia eólica e às outras fontes renováveis?

GF -  O Gás e Energia focará sua atuação nos próximos leilões de energia nova por meio da geração termelétrica a gás natural. Assim, o PN 2011-2015 não prevê investimentos em novos projetos de energia eólica e outras fontes renováveis. Entretanto, a Petrobras continua trabalhando no desenvolvimento de um portfólio de projetos de fontes renováveis. Atualmente, há estudos para implantação de projetos eólicos nos estados do Rio Grande do Norte e Ceará que passarão por processos de avaliação de oportunidades e poderão ser incluídos nos próximos planos de negócios.

JPP - O que aconteceu? Os preços baixos das eólicas no último leilão lhe surpreenderam mesmo?

GF – É. A gente quer observar, acompanhar a performance destas tecnologias, para que a gente possa aprender. Eu torço para que esta energia eólica de 98 reais por MWh vire elétron de fato, porque nós da Petrobras queremos aprender como é que se faz a este preço. Inclusive contratamos o Centro de Tecnologias do Gás & Energias Renováveis (CTGAS-ER), para acompanhar a performance destes equipamentos e do projeto como um todo, porque ainda não sabemos fazer energia eólica a este preço. 

JPP - Há planos concretos para investimento da Petrobras em geração de energia a partir de fonte solar?

GF - Hoje a Petrobras não possui projetos de energia solar em seu plano de investimentos, mas desenvolve, por meio do  Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (CENPES) e junto ao Centro de Tecnologias do Gás & Energias Renováveis (CTGAS-ER), a pesquisa e o desenvolvimento na área de energia solar fotovoltaica e solar térmica. Nós apostamos que, no médio prazo, a energia solar se tornará comercialmente viável para geração concentrada. Nesse sentido, a Companhia se inscreveu na chamada pública da ANEEL, de 24/10/2011, para desenvolvimento e posterior instalação de planta piloto solar fotovoltaica de 1 MW no Rio Grande do Norte.


JPP - Qual a importância do CTGAS-ER hoje no desenvolvimento das energias renováveis no Brasil? Que sucessos destacaria nestes dois anos de expansão e aprimoramentos que acrescentaram as renováveis ao segmento de gás natural, nas suas atividades?

GF - Ah, eu sou completamente apaixonada pelo CTGAS. É como se fosse meu filhinho mais novo. O filho mais velho é o CENPES, e o mais novo é o CTGAS. E dentro dele, particularmente a área de energias renováveis que tem me entusiasmado muito. Desde que implantamos lá a atividade de Energias Renováveis a partir de 2009, passando a se chamar CTGAS-ER, nós objetivamos torná-lo, tal como é para as atividades de gás, uma referência para energias renováveis. O CTGAS-ER conta com estrutura e profissionais para a realização de trabalhos de educação profissional, serviços técnicos e tecnológicos nas áreas de energia eólica e Pequenas Centrais Hidrelétricas, e está desenvolvendo atuação na área de energia solar. Assim, o CTGAS-ER é, em 2011, um dos centros mais importantes para o desenvolvimento de energias renováveis no Brasil. E como mencionei, o CTGAS-ER participa ativamente do acompanhamento da construção e operação dos parques eólicos do complexo de Mangue Seco.

JPP - Com relação à área de gás, durante o lançamento do Plano de Negócios em que a Petrobras estabeleceu estes montantes por área, a diretora declarou que a Petrobras fechou o ciclo da montagem da malha de gás e que agora “está na hora de tirar proveito disso com o mínimo investimento e o máximo de retorno”. Como isso será implementado?

GF - Dos US$ 13,2 bilhões que a área de Gás e Energia investirá, neste PN 2011-2015, US$ 3,4 bilhões serão destinados à infraestrutura com foco em processamento de gás e pontos de entrega, sem adicionar novos dutos à malha que concluímos em 2011. Foram investidos US$ 15 bilhões de 2007 a 2011 na ampliação e integração desta malha de gasodutos e agora vamos maximizar o retorno sobre este investimento ampliando o mercado e trabalhando lado a lado com as distribuidoras. A Petrobras vai estar mais próxima do consumidor e criar novas formas de comercialização com ênfase no Mercado Secundário, que é o gás que colocamos a preços menores para a indústria bicombustível nos momentos em que as termelétricas não estão operando.

JPP - Apenas para contextualizar o leitor da nossa região, temos o GASENE finalizado e as perspectivas de produção de gás das bacias de Santos e Campos (inclusive pré-sal) aumentando. O sistema nacional está unificado? Estamos aptos a consumir uma molécula de gás do campo de Mexilhão ou da Bolívia em Fortaleza, se necessário? O sistema de importação de Gás Natural Liquefeito (GNL) ainda será necessário? Por quanto tempo? E com a Bolívia? Como estão as relações?

GF - Hoje operamos uma malha de transporte integrada, do Rio Grande do Sul ao Ceará. Quando há um acréscimo de demanda no Rio Grande do Norte, por exemplo, a oferta de gás poderá ser incrementada seja nas bacias produtoras da Petrobras, seja por meio da importação da Bolívia ou de GNL. Todos estes recursos precisam estar disponíveis para atender ao mercado e sua utilização será mais intensa conforme o despacho termelétrico. Não podemos prescindir dos terminais de importação de GNL pois temos compromissos de longo-prazo com o setor elétrico. No caso da Bolívia, o contrato em vigor vai até 2019 e será necessário iniciar em breve as negociações para a contratação além deste horizonte.

JPP – Como anda a chegada de gás liquefeito importado em Pecém-CE? Quanto chega?

GF – O GNL está entrando regularmente em Pecém, É “na base”, como se diz, numa média 2,5 milhões de metros cúbicos por dia de GNL que pode vir do Catar, de Trinidad ou de Mexilhão (Bacia de Santos). Este gás vai sendo inserido, junto com o gás produzido localmente, no sistema Gasfor-Nordestão para consumo da região - inclusive da TermoFortaleza e da Termoaçu (que produz vapor para recuperação dos campos de petróleo mas também gera energia para o sistema nacional). Às vezes essa importação de GNL pode atingir 4,5 milhões de metros cúbicos por dia. Não chega aos 7 milhões da capacidade total prevista inicialmente porque infelizmente a térmica José de Alencar (do Grupo Bertin) nunca saiu do papel embora tenha um terminal e um ponto de entrega dedicado a ela. Há dois meses atrás eles perderam o contrato e agora aquele gás está no balanço e já está sendo dedicado por nós a outros consumidores.


GF - As distribuidoras estão implantando seus projetos de expansão das redes de gasodutos oferecendo o gás natural em novos municípios e a todos os segmentos de mercado.  No Rio Grande do Norte, a Potigás está construindo um gasoduto, ao longo da Via Costeira de Natal, que oferecerá o gás natural para 12 Resorts e vários hotéis na região de Ponta Negra.  A expansão da rede permitirá à Potigás dobrar, já em 2012, o número de residências atendidas e ampliar o fornecimento ao segmento comercial, em restaurantes e panificações.  No setor industrial, os segmentos de mineração e cimento são o foco dos estudos de planejamento da expansão da companhia.  No Ceará, a Cegás iniciou um plano de expansão de mais 137 km de rede para atender 46 mil residências e comércios em Fortaleza até 2015. Oportunidades no Porto de Pecém estão sendo avaliadas e farão parte do planejamento da expansão da companhia. Na Paraíba, a PBGás implantará o projeto de atendimento aos mercados residencial e comercial de Campina Grande, com potencial de ligação de 2 mil clientes. Estão em fase de negociação projetos de cogeração em duas indústrias e em um shopping center. Com a vocação turística destas regiões, o gás natural tem um papel fundamental na sustentabilidade do desenvolvimento econômico aliado à preservação das riquezas naturais.

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