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domingo, 16 de outubro de 2011

RN PERDE POTENCIAL POR FALTA DE PORTO


Jornal de Fato, 16/Out/2011
Cezar Alves
Da Redação
Até o final de 2013, o setor de energia eólica (gerada a partir da força dos ventos) no Brasil terá 5.350 gigawatts em capacidade instalada, sendo que, desse total, 2,6 gigawatts serão em território do Rio Grande do Norte. Essa é a estimativa da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Segundo especialistas em energias renováveis, de 2011 a 2013 serão, em média, 800 torres de 122 metros e pesando até 300 toneladas sendo instaladas em território potiguar.
Como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) só financia esses empreendimentos milionários se 60% das peças forem industrializadas no Brasil, em tese o Rio Grande do Norte seria um forte candidato a receber as maiores indústrias do mundo na produção de torres de energia eólica, considerando o que foi negociado em energia eólica nos leilões de 2009, 2010 e 2011. Em tese, pois tecnicamente não é possível, por não existirem estradas, ferrovias ou portos de grande porte para receber matéria prima e exportar o produto industrializado.
É o que observa Antônio Figueiredo, que é professor, economista, pós-graduado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas e especialista em Planejamento Estratégico e Logística Associada a Processos de Comércio Exterior. Figueiredo diz que até existe interesse das indústrias em se instalarem no Rio Grande do Norte, considerando a demanda local, mão de obra e a proximidade com a Europa e a África, mas esse interesse barra na falta de estrutura portuária.
"Não existe estrutura portuária a contento no Rio Grande do Norte para desembarque de matéria prima (chapa de aço) para o setor eólico e embarque do produto industrializado (torres) para outros países ou Estados brasileiros", destaca Antônio Figueiredo, lembrando que as grandes indústrias optaram por se instalar nas áreas portuárias do Pecém, no Ceará, Suape, no Pernambuco, e na região de Sorocaba (SP).
As principais indústrias que fornecem torres eólicas no mundo que já atuam no Brasil são Gamesa, GE e Vestas. No Brasil, entre outras, atuam também Alston e Wobben. O especialista em energia, petróleo e gás Jean Paul Prates, ex-secretário de Energia e Gás do Rio Grande do Norte, concorda com Antônio Figueiredo quanto à falta de estrutura logística no Rio Grande do Norte para receber matéria prima da indústria eólica e envio de equipamentos industrializados. Destaca que as mesmas dificuldades são enfrentadas por outros setores de indústria.
O subsecretário de Desenvolvimento Econômico Américo Maia, do Governo do Estado, reconhece a dificuldade portuária do Rio Grande do Norte para atrair empresas do setor eólico. Disse que o Governo do Estado, através do secretário Benito Gama, tem realizado várias audiências com empresas do setor, ofertando incentivos fiscais, gás subsidiado, áreas e, mesmo assim, as empresas não se interessam. Reclamam da estrutura logística. Apesar das dificuldades, uma indústria foi conquistada e está se instalando no município de Parazinho.
No caso do Porto de Natal, o principal problema observado por Antônio Figueiredo e Jean Paul Prates é com o acesso urbano ao porto. Carretas com mais de 50 metros de extensão com peso superior a 80 toneladas têm dificuldades para chegar e sair do porto. Já o porto de Areia Branca serve apenas para embarques de sal. "O litoral do Rio Grande do Norte não tem profundidade suficiente para se construir porto para receber grandes navios", explica Américo Maia. Para Jean-Paul Prates e Antônio Figueiredo, o crescimento do RN paralisa no porto que não tem.

RN terá 3 vezes a energia que consome
O primeiro parque eólico montado no Rio Grande do Norte foi um da Petrobras no litoral do município de Macau, em 2004. Está em funcionamento com capacidade instalada de 1,8 megawatt. O segundo parque foi em Rio do Fogo; tem capacidade para 49 megawatts. Também já estão em funcionamento o Parque Alegria I, com 51 megawatts, e Mangue Seco III (26 megawatts), em Guamaré. Até 2014, serão 2,6 gigawatts instalados, que é energia suficiente para atender em três vezes a demanda de consumo do Rio Grande do Norte.
Além do Parque Alegria I, a segunda unidade está sendo montada. Terá capacidade de aproximadamente 100 megawatts. No mesmo município existem outros 4 parques sendo montados: Mangue Seco, I, II, IV e V. Existem unidades sendo montadas também em João Câmara, São Miguel do Gostoso e terrenos sendo preparados para também receber torres em Tibau, Grossos, Areia Branca, Porto do Mangue, e também na região da Serra de Santana.
O cenário ambiental do município de Guamaré, com 12 mil habitantes, já foi totalmente transformado e não é nem o município que vai receber o maior número de torres eólicas. Segundo o coordenador de Desenvolvimento de Energia José Mário Gurgel, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Parazinho terá o maior número de torres eólicas. José Mário lembrou que Parazinho, inclusive, é a única que tem fabricante de torres eólicas instalada.
Mas as unidades fabricadas em Parazinho não atenderão 10% da demanda das torres que vão ser instaladas no Rio Grande do Norte nos próximos três anos. As pás eólicas, turbinas e tubos, segundo Antônio Figueiredo, estão vindo da região de Sorocaba (SP), Paraná, Pernambuco e Fortaleza (CE), onde já estão em operação as fábricas desses equipamentos.
"Se o transporte das pás eólicas, turbinas e tubos está sendo difícil dos portos do Pecém e Suape para o Rio Grande do Norte, mais difícil ainda será para a região serrana, que tem estradas estreitas e com curvas fechadas. Não tem como a carreta de 53 metros fazer a curva", observa Jean Paul Prates. Para transportar uma só torre, mobiliza oito carretas de 53 metros cada e 16 carros pequenos (batedores), além de escolta da Polícia de Trânsito.
O especialista Antônio Figueiredo acrescenta que para fazer o transporte de cada pá eólica, tubo ou turbina, é preciso autorização do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte. "Se considerar que em 2012 serão montadas no Rio Grande do Norte cerca de 800 torres, teremos aí circulando oito mil carretas pelas rodovias federal e estadual do Rio Grande do Norte para transportar os equipamentos do Porto do Suape ou Pecém para as usinas potiguares", explica.

Pás eólicas só podem ser transportadas nas BRs durante o dia
Segundo Antônio Figueiredo, os portos de Natal, Salvador e Fortaleza (Mucuripe) não reúnem condições de acesso para receber pás eólicas. "Quem tenta tem grandes prejuízos", alerta Figueiredo, explicando que as ruas das três capitais são estreitas, têm muita fiação elétrica, sinais de trânsito e, como a carreta é muito longa, não conseguem manobrar. Esse tipo de equipamento só desembarca no Pecém, perto de Fortaleza (CE), e Suape, perto de Recife (PE).
Os portos de Natal, Fortaleza e Salvador têm acesso para receber as turbinas e tubos, porém em horários noturnos e assim mesmo com desembarque direto nas carretas, por não terem local adequado de armazenamento. Nesse caso, os equipamentos seriam descarregados à noite direto nas carretas. Esses veículos fariam as manobras pela cidade ainda à noite e aguardariam o dia amanhecer para poderem circular nas rodovias federais com autorização do Dnit e escolta da PRF.
Na BR, cada carreta só tem autorização para trafegar durante o dia e, assim mesmo, quando chegam a regiões em que existem estacionamentos largos ou postos de combustíveis com espaço, as carretas encostam para o trânsito fluir. Em Mossoró, o ponto de apoio é próximo ao Café Santa Clara. Em Assú é o posto Nossa Senhora dos Impossíveis. A demora é mais pela falta de escolta da PRF ou autorização de circulação do Dnit.

Ferrovia é vista como solução para o RN
Para Jean-Paul Prates, o Rio Grande do Norte deveria lutar pela ferrovia interligando o Estado à Transnordestina, na cidade de Quixadá (CE). "Outro trecho de ferrovia que, se recuperado, seria fundamental para o desenvolvimento do Estado é o que interliga Macau a Natal, assim como o trecho de ferrovia do Porto de Natal à região de Ceará Mirim", destaca, que atualmente trabalha na reestruturação da fábrica de barrilha de Macau.
A proposta de Prates é parecida com a que defende o economista inglês Brian E. Tipler, que projetou e está viabilizando a estrutura da Zona de Processamento e Exportação (ZPE do Sertão) no município de Assú. "Ele observa que o potencial industrial do Rio Grande do Norte está inviabilizado devido à questão logística e que a ferrovia interligando a Transnordestina colocaria o Rio Grande do Norte no eixo de desenvolvimento do Nordeste".
A proposta de Tipler permitirá, inclusive, que, se algum empresário do setor eólico desejar, poderá instalar sua fábrica na ZPE do Sertão, em Assú, com todos os benefícios alfandegários, incentivos fiscais, infraestrutura proporcionada pelo projeto aprovado pelo presidente Lula da Silva. Além de fomentar o setor industrial, também, conforme Tipler, viabiliza transporte para o setor de extração e indústria de cimento e cal na região de Mossoró e Baraúna.
Para implantar a ZPE do Sertão, a previsão inicial de investimento é de aproximadamente R$ 1 bilhão, mais ou menos o valor que foi investido na instalação da Termoaçu, no município do Alto do Rodrigues. O projeto prevê sistema elétrico e de comunicação próprio, num investimento aproximado a 60 milhões. Além da ferrovia, a ZPE também terá segurança, água e acesso próprio, tudo controlado pelo sistema alfandegário nacional.
Outra proposta que pode interligar a região e ajuda na escoação da produção é a reativação do ramal ferroviário Macau-Natal. Para 2014, a grande expectativa quanto à questão logística é o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante. Essa estrutura foi privatizada e o Governo do Estado se esforça para entregar a estrutura prometida à empresa que comprou os diretos de explorar o aeroporto o mais rápido possível.
Jean Paul Prates e Antônio Figueiredo dizem que, sendo construída a ferrovia com as devidas dimensões ligando o setor produtivo à Transnordestina, pode ser uma saída para importar matéria-prima, industrializar e exportar produtos do setor eólico no Rio Grande do Norte. A Transnordestina está interligada aos Portos do Pecém e do Suape, além das áreas de extração de minério entre Minas Gerais, Bahia e Goiás.

GRANELEIROS
Também figura como bom negócio, segundo os especialistas, a ideia de instalar um porto de médio porte em Porto do Mangue. Nesta proposta ganha o apoio do presidente da Mineradora Mhag, Pio Sachi, de Jucurutu, que sonha com o empreendimento para facilitar a exportação do ferro bruto que extrai da Mina do Bonito, em Jucurutu. Neste caso, Pio Sachi quer construir um mineroduto para transportar o ferro da mina ao porto.

Energia dos ventos terá R$ 8 milhões em 3 anos
Os investidores e empresários do setor de energia eólica do Rio Grande do Norte, em reunião com a governadora Rosalba Ciarlini e o vice-governador Robson Faria (governador interino) em fevereiro de 2011, disseram que o principal problema que enfrentam para se instalar é com a demora em ter acesso às licenças ambientais e já advertiram quanto ao transporte das torres. Os investimentos no setor nos próximos três anos serão superiores a R$ 8 bilhões.
Na época, Rosalba orientou ao Idema a agilizar os licenciamentos, considerando que o setor energético eólico traz benefícios ao meio ambiente e assegura a segurança energética do Estado, facilitando a atração de empresas para atuar no Estado. De acordo com Marcelo Toscano, diretor do Idema, o órgão já conta com políticas específicas para o setor.
"Foi formado um núcleo com técnicos focados na área de licenciamento para o setor eólico", disse Toscano. A governadora lembrou que "os investimentos pertencem aos empresários, mas nós do governo estamos nos colocando à disposição para que vocês se sintam seguros juridicamente para realizá-los". Para o Governo, o setor eólico é uma nova fronteira econômica.
A vontade de impulsionar os projetos no setor de energia eólica recebeu também o apoio do presidente da Assembleia Legislativa do RN, o deputado Ricardo Motta. "A Assembleia Legislativa tem orgulho de ser parceira do Governo no apoio à energia eólica. Falo em nome dos 24 deputados, porque sei que todos serão sensíveis, aprovando todos os projetos que sejam encaminhados pelo Executivo", disse Ricardo Motta.

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