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Opinião e realizações

domingo, 28 de dezembro de 2008

Vaticínios para 2009 no petróleo e no gás.

Indícios fortes na economia e na política internacional levam a crer que dificilmente o preço do barril do petróleo voltará aos pícaros de 120+ dólares, recentemente atingidos. Na semana passada, o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, prometeu iniciar "uma jornada em direção à nova fronteira energética", afirmando que essa será "a prioridade dominante" do seu governo, "como um teste que definirá a nossa época" (cf. O GLOBO 16/12 pg 31).

O presidente-eleito discursava durante anúncio do nome do seu futuro Secretário de Energia, o Nobel de Física Steven Chu. Obama disse que não poderá falhar ou "se deixar tranquilizar numa complascência simplesmente porque o preço da gasolina no posto caiu". E arrematou: "Para controlar o seu próprio destino, os Estados Unidos devem desenvolver novas formas de energia e novas maneiras de usá-las".

No mesmo sentido, prometeu trabalhar nas questões climáticas em cooperacão com os outros países, numa demonstração inequívoca de oposição à política unilateral de George W Bush.

Somente esta diretriz governamental aplicada à maior nação energívora e petrolívora do mundo já seria um tremendo viés de baixa para os preços.

Mas não é só isso:

- A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) anunciou no dia 17/12 redução na sua produção diária em 2,2 milhões de barris a partir de 01 de janeiro de 2009, no que será o maior corte na produção da história da organização. Apesar do anúncio, que teve a intenção de conter a queda no preço do petróleo, o barril atingiu o nível mais baixo dos últimos quatro anos, indicando que há uma crença generalizada de que o mundo está a caminho de uma longa recessão. Após a divulgação do corte da Opep, o barril de petróleo bruto caiu para US$ 40,20, o preço mais baixo desde 2004. Países não pertencentes ao bloco, como Rússia e Azerbaijão, também anunciaram reduções de milhares de barris na produção diária.

- Analistas da consultoria Raymond James & Associates (Houston) enxergam uma gradual inelasticidade do mercado de petróleo aos anúncios de cortes de cotas por parte do cartel dos exportadores de petróleo, a OPEP. A credibilidade do regime de cotas encontra-se abalada historicamente assim como a capacidade do cartel em fazer valer a sua meta de preço ideal (que estaria em torno de U$75/barril), concordam os analistas da Pritchard Capital Partners (Nova Orleans).

- "O melhor remédio para preços deprimidos no mercado de petróleo é... preços baixos, dizem os analistas da Raymond James. O arrocho do crédito e os fluxos de caixa menos expressivos levarão os países não-OPEP a perder capacidade de produção em proporção ao cartel. "No entanto, desta vez a capacidade de incremento na produção da OPEP também aparenta ser meio anêmica", dizem os analistas americanos.

- Consultores da KBC Market Services (Surrey, Inglaterra), esperam uma estabilização dos preços em torno do patamar de US$ 80/barril para o Brent, ao longo de 2009. De nossa parte, preferimos vaticinar um patamar mais conservador, em torno de US$70.

- Apesar de vistos com certa incredulidade, especialmente quanto à efetiva implantação e viabilidade, tanto EUA quanto a Comunidade Européia estabeleceram como meta para 2020 o suprimento, a partir de fontes renováveis, de 20% de sua matriz energética.

- Apesar do enxugamento da liquidez nos mercados financeiros ter jogado um balde de água fria nas ousadas metas de investimentos da ordem de 500 bilhões de euros em programas de geração de energia a partir de fontes renováveis, é certo que projetos voltados para geração local de energia (a partir de fontes eólicas, fotovoltaicas ou termo-solares) ainda atrairão investimentos mesmo em meio à crise.

- Segundo a consultoria especializada Edelman (em conferência sobre o assunto, havida em Bruxelas, no final de novembro), "ao invés de simplesmente receberem e distribuirem energia gerada nas plantas para o consumidor final, as distribuidoras terão que se preparar cada vez mais para receber energia gerada pelos seus próprios consumidores, por vezes estocá-la e distribuí-la para outros consumidores de acordo com a demanda de cada um". Isso levará a uma verdadeira industrialização geral dos mercados de energia e uma necessidade que as distribuidoras de energia participem e apóiem cada vez mais de perto o investimento de seus consumidores em geração local (auto-produção e co-geração, por exemplo), diminuindo os fluxos de energia inter-estaduais e internacionais.

- Na área do gás, as expectativas dos consultores da WoodMackensie (Edinburgh, Reino Unido) são de que os preços oscilarão entre US$5-6/MMBtu nos próximos 5 anos. O mercado passou a conviver com o fato novo de que, em 2007, os volumes que foram acrescidos a estas reservas norte-americanas superaram, em mais de duas vezes, a produção do país no mesmo período. Segundo o EIA, a produção americana de gás natural no ano passado foi de 19,5 tcf (552,2 bilhões de m³), que equivalem a 1,513 bilhões de m³/dia, cerca de 30 vezes a produção brasileira. Entretanto, o que foi adicionado às reservas provadas chegou a 46,4 tcf (1.305,5 bilhões de m³), número recorde para um ano de trabalho. Com isto, as reservas provadas totais americanas atingiram 237,7 tcf (6,731 trilhões de m³) – uma situação sem dúvida confortável, modificando substancialmente o panorama futuro do gás na América - e afetando profundamente os auspiciosos planos e preços do GNL destinado aos EUA.

- Ainda no próprio relatório da EIA, encontramos a explicação para a alteração das perspectivas. “As adições refletem principalmente o rápido desenvolvimento das fontes não-convencionais, incluindo xistos (“shale”), metano contido em depósitos de carvão (“coalbed methane”) e formações arenosas de baixa permeabilidade (“tight low-permeability formations”, ou “tight sands”), dizem os técnicos da EIA. Inovações tecnológicas são a chave da acelerada viabilização destas fontes, há muito conhecidas, mas comercialmente inviáveis. Entre elas, novas técnicas de mineração (como o caso da fratura das rochas das grandes jazidas de xisto de Haynesville, Louisiania) e processos de tratamento mais eficientes, que reduzem progressivamente o custo do gás natural obtido, fazendo uma convergência positiva com os preços mais elevados de venda dos últimos anos.

- Os volumes provenientes destas fontes, incorporados às reservas provadas no ano de 2007, já as tornam parte expressiva do total, como informa o Oil & Gas Journal. O gás de xisto, recuperável comercialmente, por exemplo, cresceu nada menos de 50% no ano, e já responde por 9% do total americano. O gás proveniente dos depósitos de carvão (“coalbed methane”) teve suas reservas aumentadas em 11,5% em 2007, e representa agora outros 9% do total. Há estados americanos especialmente beneficiados com a inclusão de reservas de fontes não-convencionais, como o Texas, que acrescentou 10,3 tcf (291,7 bilhões de m³), ampliando em 17% seu total, o Wyoming, que incorporou 6,2 tcf (175,6 bilhões), crescendo suas reservas em 26%, e o recordista, o Colorado, que adicionando 4,7 tcf (133,1 bilhões de m³), aumentou 27%.

- Os países exportadores de gás estão preocupados, pois além dos EUA darem indícios de que precisarão importar menos gás no futuro, as indicações são de que os preços de GNL nos próximos 5 anos oscilem em torno de 5-6 dólares por milhão de Btu, enquanto antes se vaticinavam preços da ordem de 20 dólares. Por esta razão, foi oficializada esta semana em Moscou, pelos ministros de 12 países exportadores de gás, a chamada "OPEP do gás" sob a denominação de Fórum de Países Exportadores de Gás (FPEG). Embora consideremos difícil replicar o modelo da OPEP (baseado em cotas de produção e influência nos preços internacionais) no mercado de gás, é fato que tais países terão que discutir entre eles formas de "dividir" o mercado - e principalmente maneiras de fidelizar seus clientes.

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