Ao
entregar prontas as primeiras eólicas do leilão de 2009 em tempo recorde, a
comandante de todos os investimentos da Petrobras em gás e energia, em
entrevista exclusiva à E&RN, declara que torce para que a energia eólica a R$98/MWh
vire elétron de fato: “Não sabemos como gerar com eólicas a este preço, mas
queremos aprender”.
A diretora de Gás e Energia da Petrobras, Graça Foster,
tem sob sua responsabilidade importantes
ações como a ampliação da malha de gasodutos, a busca de flexibilidade no
suprimento de gás natural ao mercado brasileiro, a administração das fábricas
de fertilizantes e de ativos de geração de energia elétrica, como termelétricas
e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), além dos investimentos em outras
fontes renováveis, como energia eólica e solar. A diretora lidera um montante
de mais de US$ 13 bilhões em investimentos a serem realizados pela empresa no
período 2011-2015 nestas áreas.
Mineira de Caratinga, formada pela
Universidade Federal Fluminense, Graça Foster começou como estagiária na
Petrobras aos 24 anos, no centro de pesquisas da empresa - o CENPES,
trabalhando nas áreas de perfuração e produção. Ao longo de sua carreira na
empresa, além do conhecimento técnico, desenvolveu também uma vocação natural
de liderança que logo a projetou como organizadora de áreas ou subsidiárias em fase
de grandes desafios. Assim, participou ativamente da viabilização e construção
do Gasoduto Bolivia-Brasil e chegou a presidente da TBG. Entre 2003 e 2006, foi
convidada pela então Ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff para organizar
a Secretaria de Petróleo e Gás. Presidiu também a Petroquisa e a Petrobras
Distribuidora, e está à frente da área de Gás e Energia da Petrobras desde
setembro de 2007, onde reverteu o resultado de prejuízo deste setor na empresa
à época, para um resultado positivo de R$1.2 bilhão no primeiro semestre de
2011.
Nesta entrevista exclusiva à
Energia&RN, a primeira mulher a assumir uma diretoria da Petrobras conversa
com o diretor do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (CERNE),
Jean-Paul Prates, sobre os investimentos e projetos da Petrobras na sua área e,
em especial, sobre o panorama atual das energias renováveis no Brasil e, em
especial, na região RN/CE.
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JPP
- Os 4 parques eólicos do complexo Mangue Seco, localizado em Guamaré-RN, que
têm a Petrobras como sócia majoritária, tiveram a sua construção concluída em
tempo recorde – tornando-se os primeiros empreendimentos eólicos do Leilão de
2009 a entrar em operação. A que se deveu este sucesso?
GF
- Estes projetos tiveram sua construção e operação antecipadas em 8 meses. Esse sucesso deve-se ao planejamento e ao
acompanhamento da implantação junto à empresa contratada (Wobben) para executar
a obra. Desde antes de ir para o leilão, nós trabalhamos com tudo já
equacionado: desde o financiamento desenhado e aprovado até o termo de
compromisso vinculante com o EPCista (que instala o parque eólico). A gente
trabalhou com a Wobben em Mangue Seco I, II, IV e V e a construção em tempo
recorde permitirá a antecipação de receitas e melhorará o resultado econômico
desses projetos. Além da satisfação com o sucesso da obra, este empreendimento
nos traz um grande aprendizado, já que foi a primeira vez que a Petrobras
realizou projetos eólicos em escala comercial. Esta experiência tornará a
Petrobras mais eficaz para a concepção e realização de novos projetos como os
que estão em desenvolvimento.
JPP
- Quais foram os principais desafios e dificuldades enfrentadas nestas obras?
GF
- É um trabalho que exige muita mão-de-obra, o mercado está muito aquecido
então isso exige formar pessoas durante os trabalhos. O nível de escolaridade,
ainda baixo, faz com que você tenha que trainar trabalhadores ao longo da
jornada de trabalho. Ele tem que ler e
entender o que está lendo, para poder trabalhar numa obra destas. Então às
vezes precisamos fazer aulas de reforço, consolidar conceitos de segurança
operacional. Tem também a questão da
logística que é pesada e complexa. Mas, no conjunto, deu tudo certo porque terminamos
8 meses antes do previsto. Então foram dificuldades perfeitamente superáveis. Vamos
faturar uma receita antecipada, mesmo sabendo que o VPL (valor presente
líquido) é pequeno – pequeno, para a Petrobras – mas é o VPL típico e médio
destes projetos eólicos novos.
JPP
- A propósito, por ocasião destes preços baixos, chegou-se a comentar que
algumas estatais estariam se contentando com preços e taxas de retorno mais
baixos que o razoável, por terem estofo governamental. Isso procede?
GF
- Quanto à Petrobras, certamente não. Para nós, energia de qualquer tipo tem
que dar retorno adequado. Nós temos PCHs, temos eólicas, temos térmicas a gás,
a óleo. Mas todas têm que dar resultado positivo porque objetivamente nós vamos
fazer. Você pode contar com aquela energia naquele dia, naquela hora, que nós
vamos entregar. Então eu não tenho como baixar taxa de retorno para poder
viabilizar um VPL positivo porque isso é artificial. Não há milagre neste
negócio.
JPP
- Ainda segundo o Plano de Negócios 2011-2015, dos US$ 13 bilhões de
investimentos em Gás/Energia, 21% (US$ 2,8 bi) estão assinalados como sendo
para "energia elétrica". A Petrobras, através da sua diretoria, tem
apostado em energias renováveis, com destaque para parques eólicos (4 dos quais
localizados no RN). É possível, dentro deste 21% de energia elétrica, destacar
quanto do seu investimento quinquenal será dedicado à energia
eólica e às outras fontes renováveis?
GF
- O Gás e Energia focará sua atuação nos
próximos leilões de energia nova por meio da geração termelétrica a gás
natural. Assim, o PN 2011-2015 não prevê investimentos em novos projetos de
energia eólica e outras fontes renováveis. Entretanto, a Petrobras continua
trabalhando no desenvolvimento de um portfólio de projetos de fontes
renováveis. Atualmente, há estudos para implantação de projetos eólicos nos
estados do Rio Grande do Norte e Ceará que passarão por processos de avaliação
de oportunidades e poderão ser incluídos nos próximos planos de negócios.
JPP
- O que aconteceu? Os preços baixos das eólicas no último leilão lhe surpreenderam
mesmo?
GF
– É. A gente quer observar, acompanhar a performance destas tecnologias, para
que a gente possa aprender. Eu torço para que esta energia eólica de 98 reais
por MWh vire elétron de fato, porque nós da Petrobras queremos aprender como é
que se faz a este preço. Inclusive contratamos o Centro de Tecnologias do Gás
& Energias Renováveis (CTGAS-ER), para acompanhar a performance destes
equipamentos e do projeto como um todo, porque ainda não sabemos fazer energia
eólica a este preço.
JPP
- Há planos concretos para investimento da Petrobras em geração de energia a
partir de fonte solar?
GF
- Hoje a Petrobras não possui projetos de energia solar em seu plano de
investimentos, mas desenvolve, por meio do Centro de Pesquisas e
Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello
(CENPES) e junto ao Centro de Tecnologias do Gás & Energias Renováveis
(CTGAS-ER), a pesquisa e o desenvolvimento na área de energia solar
fotovoltaica e solar térmica. Nós apostamos que, no médio prazo, a energia
solar se tornará comercialmente viável para geração concentrada. Nesse sentido,
a Companhia se inscreveu na chamada pública da ANEEL, de 24/10/2011, para
desenvolvimento e posterior instalação de planta piloto solar fotovoltaica de 1
MW no Rio Grande do Norte.
JPP
- Qual a importância do CTGAS-ER hoje no desenvolvimento das energias
renováveis no Brasil? Que sucessos destacaria nestes dois anos de expansão e
aprimoramentos que acrescentaram as renováveis ao segmento de gás natural, nas
suas atividades?
GF
- Ah, eu sou completamente apaixonada pelo CTGAS. É como se fosse meu filhinho
mais novo. O filho mais velho é o CENPES, e o mais novo é o CTGAS. E dentro
dele, particularmente a área de energias renováveis que tem me entusiasmado
muito. Desde que implantamos lá a atividade de Energias Renováveis a partir de
2009, passando a se chamar CTGAS-ER, nós objetivamos torná-lo, tal como é para
as atividades de gás, uma referência para energias renováveis. O CTGAS-ER conta
com estrutura e profissionais para a realização de trabalhos de educação
profissional, serviços técnicos e tecnológicos nas áreas de energia eólica e
Pequenas Centrais Hidrelétricas, e está desenvolvendo atuação na área de
energia solar. Assim, o CTGAS-ER é, em 2011, um dos centros mais importantes
para o desenvolvimento de energias renováveis no Brasil. E como mencionei, o
CTGAS-ER participa ativamente do acompanhamento da construção e operação dos
parques eólicos do complexo de Mangue Seco.
JPP
- Com relação à área de gás, durante o lançamento do Plano de Negócios em que a
Petrobras estabeleceu estes montantes por área, a diretora declarou que a
Petrobras fechou o ciclo da montagem da malha de gás e que agora “está na hora
de tirar proveito disso com o mínimo investimento e o máximo de retorno”. Como
isso será implementado?
GF
- Dos US$ 13,2 bilhões que a área de Gás e Energia investirá, neste PN
2011-2015, US$ 3,4 bilhões serão destinados à infraestrutura com foco em
processamento de gás e pontos de entrega, sem adicionar novos dutos à malha que
concluímos em 2011. Foram investidos US$ 15 bilhões de 2007 a 2011 na ampliação
e integração desta malha de gasodutos e agora vamos maximizar o retorno sobre
este investimento ampliando o mercado e trabalhando lado a lado com as
distribuidoras. A Petrobras vai estar mais próxima do consumidor e criar novas
formas de comercialização com ênfase no Mercado Secundário, que é o gás que
colocamos a preços menores para a indústria bicombustível nos momentos em que
as termelétricas não estão operando.
JPP
- Apenas para contextualizar o leitor da nossa região, temos o GASENE
finalizado e as perspectivas de produção de gás das bacias de Santos e Campos
(inclusive pré-sal) aumentando. O sistema nacional está unificado? Estamos
aptos a consumir uma molécula de gás do campo de Mexilhão ou da Bolívia em
Fortaleza, se necessário? O sistema de importação de Gás Natural Liquefeito (GNL)
ainda será necessário? Por quanto tempo? E com a Bolívia? Como estão as
relações?
GF
- Hoje operamos uma malha de transporte integrada, do Rio Grande do Sul ao
Ceará. Quando há um acréscimo de demanda no Rio Grande do Norte, por exemplo, a
oferta de gás poderá ser incrementada seja nas bacias produtoras da Petrobras,
seja por meio da importação da Bolívia ou de GNL. Todos estes recursos precisam
estar disponíveis para atender ao mercado e sua utilização será mais intensa
conforme o despacho termelétrico. Não podemos prescindir dos terminais de
importação de GNL pois temos compromissos de longo-prazo com o setor elétrico.
No caso da Bolívia, o contrato em vigor vai até 2019 e será necessário iniciar
em breve as negociações para a contratação além deste horizonte.
JPP
– Como anda a chegada de gás liquefeito importado em Pecém-CE? Quanto chega?
GF
– O GNL está entrando regularmente em Pecém, É “na base”, como se diz, numa média
2,5 milhões de metros cúbicos por dia de GNL que pode vir do Catar, de Trinidad
ou de Mexilhão (Bacia de Santos). Este gás vai sendo inserido, junto com o gás
produzido localmente, no sistema Gasfor-Nordestão para consumo da região -
inclusive da TermoFortaleza e da Termoaçu (que produz vapor para recuperação
dos campos de petróleo mas também gera energia para o sistema nacional). Às
vezes essa importação de GNL pode atingir 4,5 milhões de metros cúbicos por dia.
Não chega aos 7 milhões da capacidade total prevista inicialmente porque
infelizmente a térmica José de Alencar (do Grupo Bertin) nunca saiu do papel embora
tenha um terminal e um ponto de entrega dedicado a ela. Há dois meses atrás
eles perderam o contrato e agora aquele gás está no balanço e já está sendo
dedicado por nós a outros consumidores.
GF
- As distribuidoras estão implantando seus projetos de expansão das redes de
gasodutos oferecendo o gás natural em novos municípios e a todos os segmentos
de mercado. No Rio Grande do Norte, a
Potigás está construindo um gasoduto, ao longo da Via Costeira de Natal, que
oferecerá o gás natural para 12 Resorts e vários hotéis na região de Ponta
Negra. A expansão da rede permitirá à
Potigás dobrar, já em 2012, o número de residências atendidas e ampliar o
fornecimento ao segmento comercial, em restaurantes e panificações. No setor industrial, os segmentos de
mineração e cimento são o foco dos estudos de planejamento da expansão da
companhia. No Ceará, a Cegás iniciou um
plano de expansão de mais 137 km de rede para atender 46 mil residências e
comércios em Fortaleza até 2015. Oportunidades no Porto de Pecém estão sendo
avaliadas e farão parte do planejamento da expansão da companhia. Na Paraíba, a
PBGás implantará o projeto de atendimento aos mercados residencial e comercial
de Campina Grande, com potencial de ligação de 2 mil clientes. Estão em fase de
negociação projetos de cogeração em duas indústrias e em um shopping center.
Com a vocação turística destas regiões, o gás natural tem um papel fundamental
na sustentabilidade do desenvolvimento econômico aliado à preservação das
riquezas naturais.